Arquivo de Fevereiro, 2007

Pancada na tola

Fevereiro 27, 2007

Há algum tempo, comecei aqui a estória de alguém que tinha “aterrado” numa ilha deserta. Não é importante que se lembrem ou conheçam, já que eu também não me vou dar ao trabalho de voltar a ler o que escrevi, para já, e muito menos estou precocupado em que a estória faça sentido, que tenha continuidade. Até porque não o deve ter.
Quem pensar um pouco, que continuidade há no ter chegado a uma ilha deserta, sem saber de onde nem como?
Mas recordo, que já tinha dado a volta ao “território” e ficado com a noção de que o mesmo era uma ilha, voltei ao sitio de onde tinha partido, sempre com mar do mesmo lado, enquanto dava a volta, que é como quem diz, mar por todos os lados.
Não sei quanto tempo passou, depois de aqui ter chegado, sei que já me habituei à companhia, ou à falta dela. Os dias são passados mais ou menos todos da mesma maneira. Acordo “perdido”, neste sitio a que já me acostumei.
Com fome, mas sem fome, o meu organismo pede que o alimente, mas não consigo justificar essa necessidade. Isto do querer viver, sozinho não faz sentido. Que piada tem tudo o que aqui posso descobrir, se não o posso partilhar a ninguém, o que importa o que aprender se não o posso passar a ninguém. Já aqui estou há demasiados dias para ter esperança. Apetece-me desistir, sei que devo, mas não o sinto. Existe sempre esta esperança estupida…
… Hoje não me apetece esta estória… e porque não aquela versão em que cai do ceu, sei lá, expulsa de um avião devido a saber de mais sobre uma qualquer “companhia” mafiosa, uma bela mulher. Não porque fosse a mais bela mulher do mundo, quer dizer, naquele “mundo” era a mais bela, e também a unica, e também não havia ovelhas informaram-me agora.
E a vida volta a fazer sentido, mesmo que perdidos ali, ou talvez por isso.
Afinal não, a unica coisa que caiu do céu foi um coco, que lhe deu tal pancada na tola, que lhe proporcionou este estado de “graça” (esta dá pelo menos duas), e mais qualquer coisa com uma caixa de atum, que agora não me lembro. Mas parece que ele gostou e, agora duas a tres vezes por semana, tenta apanhar com cocos na tola.

CD

Diário de um homem

Fevereiro 26, 2007

Não gosto de aqui colocar o que não foi inventado por mim, mas a verdade é que ando com falta de capacidade concretizadora de escrita e sempre achei este texto muito giro. Sei que também não foi escrito pelo autor de onde o tirei, mas fica aqui a referência.

Segunda-feira
Sozinho em casa. Minha mulher vai passar a semana fora. Óptimo. Acho que teremos uma semana inesquecível – o cachorro e eu. Tracei um plano e programei meu tempo. Sei exactamente quando acordar, quanto tempo ficar no banheiro e quanto tempo levar preparando o café. Também somei o número de horas de que preciso para lavar, arrumar, levar o cachorro para passear, fazer compras e cozinhar. Estou agradavelmente surpreso em ver que ainda me sobra muito tempo livre.
Não sei porque as mulheres fazem o serviço de casa parecer tão complicado, quando toma tão pouco tempo. É só se organizar. O cachorro e eu jantamos um bife cada um. Coloquei sobre a mesa a toalha de festa, uma vela, além de rosas – para criar atmosfera agradável. Ele come patê de entrada, depois outra vez no prato principal, com fina guarnição de legumes, biscoitos de sobremesa. Bebo vinho e fumo charuto. Há muito não me sentia tão bem.
Terça-feira
Preciso dar outra olhada na programação. Parece que requer pequenas mudanças. Expliquei para o cachorro que nem todo dia é feriado. No café da manhã, notei que o suco de laranjas caseiro tem uma desvantagem. O espremedor tem de ser limpo a cada vez. Uma possibilidade: fazer o suficiente para dois dias. Aí posso lavar com metade da frequência. Descoberta: você pode aquecer salsichas na sopa e assim ter menos uma panela para lavar. Certamente não pretendo aspirar a casa todos os dias, como minha mulher queria. Dia sim dia não é mais que suficiente. O segredo é andar de chinelos e limpar as patas do cachorro. Pronto. Sinto-me óptimo.
Quarta-feira
Tenho a sensação de que o serviço de casa toma mais tempo que eu imaginava. Devo repensar minha estratégia. Primeiro passo: comprei comida pronta. Não preciso gastar tanto tempo cozinhando. Não se deve levar mais tempo cozinhando que comendo. Fazer a cama é um problema: sair debaixo das cobertas, depois arejar o lugar e não fazer a cama. É tudo tão complexo! Não acho necessário arrumá-la todos os dias, especialmente sabendo que voltarei a dormir naquela mesma noite. Parece tarefa sem importância. Não estou preparando refeições complicadas para o cachorro. Comprei comida pronta para cães. Ele fez uma cara! Mas o que fazer? Se posso comer refeições semi-prontas, ele também pode.
Quinta-feira
Chega de suco de laranja! Como pode uma fruta de aspecto tão inocente causar tanta confusão? É inacreditável. Comprarei suco de laranja em garrafa, pronto para beber. Descoberta: consegui sair da cama quase sem desarrumar as cobertas. Tudo que tive de fazer foi alisar um pouco o cobertor. Claro, é preciso prática e não se pode rolar muito durante o sono.
Minhas costas doem um pouco, mas nada que um banho quente não resolva. Parei de me barbear todos os dias. É realmente perda de tempo. Ganho preciosos minutos que minha mulher nunca perde pois não faz barba. Descoberta: não há necessidade de comer num prato novo a cada vez. Lavar a louça com tanta frequência começa a me irritar. O cachorro também pode comer numa única tigela. Afinal, é só um cão. Nota: cheguei a conclusão que se pode aspirar somente uma vez por semana. Salsichas no almoço e no jantar.
Sexta-feira
Basta de suco de frutas! As garrafas são pesadas demais. Descobri o seguinte: salsichas são óptimas pela manhã. No almoço, nem tanto. Se um homem come salsichas por mais de dois dias pode ter náuseas. Dei ração ao cachorro. É nutritiva e não suja a tigela. Descobri que a sopa pode ser ingerida directamente da lata. Tem o mesmo gosto. Sem vasilha, sem concha! Não me sinto mais um lava-loiças automático. Parei de esfregar o chão da cozinha. Aquilo me irritava tanto quanto fazer a cama. Nota: esqueça as latas, pois sujam o abridor.
Sábado
Por que tirar a roupa á noite se vou vesti-la logo pela manhã? Prefiro passar o mesmo tempo deitado, descansando. Também não há necessidade de usar cobertas, assim a cama já fica feita. O cachorro sujou o chão. Dei-lhe uma bronca. Não sou seu criado! Estranho… Minha mulher me diz isso de vez em quando. Hoje é dia de fazer a barba, mas não sinto vontade.
A paciência está no limite. O café da manhã será algo que eu não precise desembrulhar, abrir, espalhar, cozinhar ou mexer. Tudo isso me irrita. Plano: almoçar directamente na sacola, em cima do fogão. Sem pratos, talheres, toalhas ou qualquer outro absurdo. As gengivas estão meio inflamadas. Talvez seja pela falta de frutas, tão pesadas para carregar. Minha mulher ligou a tarde e perguntou se lavei as janelas e as roupas.
Caí numa risada histérica. Disse que não tive tempo. Há um problema na banheira. Está entupida com esparguete. Não me incomoda muito, parei de tomar banho mesmo. Nota: o cachorro e eu comemos juntos, directamente da geladeira. Tem de ser rápido para não ficar muito tempo aberta.
Domingo
O cachorro e eu estávamos sentados na cama vendo na TV as pessoas comerem todo o tipo de comida e guloseimas. Ficamos com água na boca. Estamos muito fracos e de mau humor. Comi algo da tigela do cachorro esta manhã.
Nenhum de nós gostou. Devia tomar banho, fazer barba, pentear-me, dar comida ao cachorro, levá-lo para passear, lavar a louça, arrumar, fazer compras, entre outros – mas não tenho forças. Sinto que estou perdendo o equilíbrio e minha visão está sumindo. O cachorro parou de abanar o rabo. Num último acesso de auto-preservação, rastejamos até um restaurante. Comemos vários pratos de boa comida durante mais de uma hora. Depois vamos a um hotel. O quarto é limpo, arrumado e aconchegante.
Encontrei a solução ideal para os serviços de casa. Imagino se minha mulher já pensou nisso…

Harem

Fevereiro 24, 2007

Só de ouvir esta palavra, fico arrepiado. Um harem, é uma especie de colégio feminino, onde nós temos permissão para entrar. Voltei a arrepiar-me.
Já vai há muitos anos, mas basta fechar os olhos e parece que foi ontem, tal a marca que me ficou no cerebro. Mas deixai-me enquadrar-vos.
Uma altura, tinha ido eu fazer a volta-ao-dakar, é uma espécie de paris-dakar, mas numa competição não completamente “legal”, em que a malta é que leva o prémio… mas a ideia é identica, no não querer ficar para trás. Adiante…
Dessa vez, tudo correu mal. Assim que soou o sinal de partida, o meu sócio desapareceu, levando o prémio e deixando-me a mim a ter de fazer a corrida. O mal é que não possuindo o prémio, a assistência deixa de ser o que deveria ser. E o deserto não quer saber disso para nada.
Assim, estava eu em prova há dois dias, quando fiquei sem transporte, no meio do deserto (acho que fiquei sem gasolina, pelo menos foi o que vim a saber mais tarde). O mal do deserto, é que aquilo não tem nada. E ficar num local daqueles, sem transporte limita muito o que se pode fazer.
Como devem imaginar, naquela competição, o pedir auxilio às entidades oficiais, não era alternativa.
Ainda por cima, ali o sol parece que não tem descanço. Enquanto a bateria durou, ainda me aguentei dentro do carro, mas rápidamente comecei a perceber o que sentem os alimentos quando estão a ser assados num forno.
Sai do carro, e andei durante umas horas, quando passei pelo carro a segunda vez, desisti… sentei-me ao lado da porta e deixei-me ficar, não sei quanto tempo estive a dormir desmaiado, apenas que acordei naquilo que me parecia o paraiso.
É incrivel o que umas cortinas bem colocadas podem fazer, ali estava fresco, mas sentia-se o calor, talvez pelos raios de sol que de tempos a tempos, no baloiçar daquelas cortinas me aqueciam o olhar, e me traziam refrescos.
Sobre o resto, voçes podem imaginar… tenham apenas em atenção uma coisa, para aqueles lados é má educação recusar uma oferta… e devem arrotar quando estiverem sastisfeitos.

CD

Tendas

Fevereiro 22, 2007

Não sei se esta será a melhor altura, para andarmos aqui a pensar em tendas, afinal está frio e chuva. Neste exacto momento em que escrevo não, mas não deve faltar muito.
Em Portugal, apenas fiz campismo dois verões, foi bom. Sei que a companhia teve muita culpa, afinal nem todos devem ter a sorte de fazer campismo com um cozinheiro de 1ª linha como aquele, quem sabe de quem estou a falar, já deve estar com inveja… para quem não conhece, e só para fazer pirraça, pensem em arroz de marisco o melhor que conseguirem imaginar, picanha e outras delicias em que nem eu quero pensar agora, pois ainda me afogo aqui.
Este meu “irmão”, é fantástico, o unico gajo que imaginei como gaja, no sentido electrodoméstico, claro. E escusam de ter ficado com ideias… isto de estar aqui a escrever a ouvir Ena Pá 2000, tinha de dar porcaria.
Mas voltando às tendas, em Portugal embora a coisa tenha sempre corrido bem, não se compara aos tempos dos desertos de marrocos. Ai o clima era quente, duplamente quente.
Nunca percebi muito bem a sensualidade do sol, fico sempre na duvida se se deve ao calor, se é a sua luz, ou apenas o seu reflexo, ou se afinal isso até nem tem nada a haver. E agora lembrei-me, da lua, que pega na luz do sol e volta a criar outro momento, como se não tivesse relação nenhuma e voltamos a sentir tudo de novo, num igual completamente diferente.
Acho que agora já não vou ser capaz de falar das minha aventuras nas arábias, de qualquer modo, aqui fica a promessa de que mesmo não o revelando já aqui, o pensar em todo aquele ambiente já está em marcha… eu vou preparar o acampamento…

CD

Braga I

Fevereiro 21, 2007

Tenho de partilhar isto convosco antes que esqueça, achei giro, revelador daquilo que ainda é Braga.
Hoje de manhã, fui levar o carro à oficina, mas, ao contrário do que é costume, em vez de apanhar os dois autocarros para casa, e por sugestão de uma amiga, acabei por apanhar apenas um, até ao centro da cidade e depois fazer o resto do percurso a pé. Experiência a repetir, talvez já daqui a bocadinho, quando for buscar o carro.
Foi bom, Braga é uma cidade de muitas vidas, com uma harmonia engraçada. Embora tenha muitos carros, continua a ser possivel fazer caminhadas a pé, e começo a achar que os transportes publicos fraquinhos talvez não sejam uma coisa muito má.
Já não me lembrava de o fazer, mas gostei, foi bom recordar caminhos antigos, algumas estórias, de tempos não muito antigos, embora às vezes pareçam. Foi então que dei por mim a apreciar, um casal de velhinhos, que de mãos dadas atravessava a rua, de mãos dadas, em direcção ao centro da avenida central e logo de seguida um grupo de teenagers passa por mim, como quem diz: “queres?”.
Para terminar, e antes que me esqueça mesmo daquilo que me levou a escrever este texto, a noticia de maior destaque na secção de economia de um dos maiores jornais cá do burgo era, o reconhecimento pela marca Balay à excelência duma loja cá da terra. Qual movimentações da Sonae, PT’s, BPI’s ou BCP’s. A Cidadela Electrónica é que está a dar.
São estas pequenas coisas que fazem desta grande cidade… pequena, mas no bom sentido.

CD

Esconde, esconde

Fevereiro 17, 2007

Foi assim que começámos, em pequeninos, a jogar de esconde-esconde. Acho que nunca tinhas reparado em mim, mas naquele dia, estávamos os dois naquele jogo, alguém contava e quando terminasse, tinha-mos de ter desaparecido. É estranho que tenha sido assim, a tentar desaparecer, que nos encontrámos.
Dentro daquele comboio, de cimento, começava a nossa viagem. Na altura não percebi o que querias dizer com aquele espaço ser pequeno demais para nós os dois, talvez na altura também não o soubesses, mas hoje compreendo, com a certeza de que eu cabia, tu cabias, mas era o nós que eramos “grandes”, pelo menos acho que chegámos a ser, e quero acreditar que ainda somos e vamos ser.
Mas ninguém o percebeu, pois ninguém deu por nós, ninguém nos encontrou. E depois ficámos ali, não sei a fazer o quê, acho a descobrir-nos…
Foi anos mais tarde que nos voltámos a encontrar, nas competições entre as escolas em que andávamos. Acho que mais uma vez não reparaste em mim. Mas eu tentei, levei-te àgua nos intervalos das partidas, entreguei-te a toalha quando estávas no banho, massagei-te os ombros quando estavas dorida, mas tu nunca me viste.
Mais alguns anos passaram.

Como é que imaginam que esta estória continua? Não precisam dizer…

CD