Arquivo de Outubro, 2007

Cursos de água

Outubro 30, 2007

Acabei de receber um postal lindissimo, com mais uma aventura dos nossos amigos Echa e Muycha. Desta vez, não vou narrar os acontecimentos, antes partilho aquilo que me chegou às mãos…

“Extraordinário mestre que durante tanto tempo nos deste abrigo, proporcionando fantásticos momentos nesse ambiente de sonho que é o teu corpo, esse santuário para quem como nós, mas basta de te dar graxa conquanto não a esqueças, o problema é que ainda te babas todo e afogas os nossos irmãos… A Muycha manda dizer que ainda não encontrou ninguém como tu… Esta malta por aqui só pensa em andar metida dentro de água, as paisagens são de facto lindissimas, mas falta-nos aquele gostinho e cheirinho especial e intenso que tu sabes tão bem preservar em ti. Mas voltando a esta malta e as águas, nós estamos bem, encontrámos uma paisagem suave, um bocado árida, na sua maioria, para o nosso gosto, mas a verdade é que nos habituámos… quem consegue ficar indiferente à tez mulata, desta terra que agora calcorreamos, às planicies que se parecem estender por quilometros…
Ainda no outro dia, tinhamos ido comprimentar uns irmãos na selva cocuruta e o percurso foi magnifico, correu muito bem a coisa, estava de facto um lindissimo dia de sol, despertámos vendo ao longe outras terras, sem aquelas capas que vos protegem não sei bem de quê, que nós nunca tivemos nada disso, e temos sido muito saudaveis e felizes. Foi quando a nossa se colocou igual, que o sol nos abriu as pesatnas de uma forma tão violenta que dissemos um para o outro «que se passa no cucuruto desta malta», e resolvemos ir investigar… aproveitávamos para ir ver os nosso irmãos lá em cima e por outro lado ficariamos mais proteidos do sol, que a selva é mais densa do que aqui de onte te escrevemos.
Saimos e começámoss por sair da nossa mata, fomos pelo lado dos montes, que atravessámos através do vale de vulcon, infelizmente este, embora rodeado por duas belas serras aconchegantes, parecia adormecido quase desde os tempos da criação. Ao fim do vale, havia uma pequena descida que acabámos por descer como um belo escorrega, eu apoiado no que aprecia uma fofa almofada, a Muycha diz que desceu comigo em cima, ops… Seguimos pelo trilho das rochas, das quais saltavamos de uma para as outras, como se estivessemos num lago com nenufares, mas perfeitamente alinhados, numa linha recta com eles lado a lado…
Quando já quase viamos a casa dos nossos irmãos, numa paisagem que parecia desaparecer de ambos os lados de forma abrupta, aquela terra estremeceu, lançou um ruido que parecia a Muycha quando lhe dá aquelas coisas… e já não chegámos a ver os nossos irmãos, aquela terra ergueu-se e começou a deslocar-se, rodámos para o lado da frente e quando lá chegámos, fomos levados num curso de água, que nos arrastou pelo lado contrário ao do percurso que tinhamos feito a caminho dos nossos irmãos…
Foi tudo muito rápido, a principio ainda ficámos presos numa pequena lagoa que se formou ali perto de onde estávamos, mas num movimento, fomos arrastados num curso de água, por entre as montanhas arrebitadas, escorremos pela pancita, ainda demos um salto num pequeno poço, pequenino e ajeitadinho, nada como o descarado e escancarado que tens ai nesse barril coberto de vegetação, e de que tanto gostamos, até por dar abrigo a irmãos nossos. Quando demos por nós, estavamos de regresso a casa.
Temos saudades tuas, diz a Muycha, que acha que não devemos ostracisar-te porque ainda podemos vir a precisar de ti, eu bem lhe digo que nós agora andamos com gente que toma banho e que por isso o mais provavel é nunca mais te vermos. Seja, passa bem.”

São uns queridos. Para aqueles que ficaram a pensar como é que tanta laracha coube num postal, a resposta é simples, com letra muito pequenina… então eles não são malta pequenina!?

A

Esquilos Life II

Outubro 23, 2007

Estava tudo decidido, tinha finalmente conseguido convencer as mentes menos preparadas para estas coisas do evoluir e avançar, muitas foram lá com alguma ginástica verbal, outras talvez apenas pelo cansaço e duas mesmo com suborno, lá se conseguiu andar com a construção do depósito Sul.
Muitos não compreenderam à primeira o porquê de descolcar para aquele local tão grande quantidade de avelãs, num sitio onde a maioria dos esquilos não tinham condições para acederem áqueles tesouros. Fui dizendo, que por isso mesmo.
Alguns meses passaram e com o novo depósito, as quantidades de avelãs disponiveis aumentaram substancialmente, permitindo a descida do preço. A avelã era agora um tesouro a que todos podiam aceder, finalmente estava disponivel a todos os cidadãos esquilos a legitima dose diária de avelã.
Foi ai que dei o meu golpe de esquilo genioso, ninguém reparou, mas os outros depósitos foram sendo esvaziados, em beneficio do meu depósito, com a ajuda do castor, alterei as águas no fim da época das colheitas, o depósito ficava agora numa ilha, na minha ilha, à qual só se podia aceder com o meu castor. Ainda bem que pouparam na época de “abundância”, mais ficou para me poderem pagar…
As avelãs que agora consumiam eram pagas com a próxima colheita, e mais alguns favores… naturalmente.

CD

Repetição

Outubro 22, 2007

Fico aqui a olhar pela janela, por muito que ande, vejo sempre as mesmas coisas, as mesmas caras, de manhã sonolentas a arrastarem esperanças de um dia melhor, ao fim do dia, com a certeza de que não foi hoje, mas talvez a esperança de que seja amanhã… e depois o dia ainda não acabou.
Passam por mim, e alguns tentam esboçar um sorriso, talvez apenas um aceno quase imperceptivel, mas que o fazem ao ver uma cara conhecida, embora não nos conheçamos realmente… vemo-nos todos os dias, a algumas caras comecei a associar nomes, a outras categorias… não às caras, mas às expressões, talvez apenas à forma como naquele dia vinham “arranjadas”…
Sabe sempre bem ouvir um bom dia, uma boa tarde, uma boa noite, na minha terra fomos ensinados a comprimentar sempre, quem entra “avisa-se”… pois e o ultimo fecha a porta, mas aqui quem faz isso sou sempre eu!
Desta minha cadeira, por momentos acompanho esta gente, nas suas vidas, algumas mais preenchidas, algumas, em alguns dias sorridentes, outras mais abatidas e uns que me pareceram sempre taciturnos, outros apenas contentes… esses felizes, que por vezes só de os vermos nos “infectam” de alegria, talvez apenas um perfume daquilo que já vivemos, ou que sabemos vir a passar, sim as coisas melhoram sempre, quanto mais não seja porque as coisas más acabam, senão por elas, connosco…
Para uns de manhã acaba o dia de trabalho, para outras é o recomeçar, eu também já fiz um pouco de todas as horas. Noite, onde se apanham os trabalhadores de centros comercias, hospitais e tresmalhados no regresso a casa, os “miudos” a caminho de uma noite de diversão… Manhãs, sem duvida a altura do dia mais complicada, é ve-los a chegar, alguns sem se perceber se chegaram a “perceber” que estiveram em casa, parecem ainda mais abatidos, alguns com sorrisos nos lábios, outros apenas a caminho de mais um dia, não se percebe bem o seu estado de espirito… Tarde, as mesmas caras, algumas expressões diferentes…
Mas é nos meios que acabamos por receber umas palavras, daquela gente que já não tem pressas, que se aconchegou à vida e agora descança, aproveitam os dias para descansar e aproveitam para percorrer as ruas da cidade, na esperança que este autocarro que eu guio as leve a alguma novidade, neste caminho que repetimos todos os dias…

CD

Revista

Outubro 18, 2007

Já estava atrasada, hoje é o dia em que fazemos 3 anos, combinámos o serão perfeito, mas não estou a ver como. Talvez por isso, mas o dia pareceu-me mais longo que o normal, toda a gente tinha porcarias para me chatear… aqui vou eu em cima da hora, a pensar se terei tempo de me preparar em condições…
Luzes azuis na traseira, será que ia em excesso, ou será uma ambulância… uma sirene, encosto… fazem-me sinal para parar… paro.
Estou tramada, tanto o chateio com os atrasos que nesta data, quando é mais importante, vou falhar, temo que se hoje chegar tarde, isso vai ser a gota de água… e ainda por cima uma multa? Poderá haver coisa mais desestabilizante? Imagino quando ele me perguntar “Em que pensas?”, e eu, em vez de um “Em ti.”, vou responder “No outro cara*** que me f***u…”.
Olho pelo espelho, e tem mesmo aquele andar à bófia, de quem tem tempo para tudo… QUERO IR PARA CASA, TENHO MAIS QUE FAZER, TENHO COISAS IMPORTANTES E ESTOU ATRASADA… penso mas não digo, preparo-me para aplicar o meu sorriso 32.
O sacana faz continência, deixando escapar entre um “Boa noite!” um esgar, como quem diz “Já te quilhaste (com f).”
Sem o olhar de frente, ainda tenho de me acalmar antes de lhe poder mostrar o meu sorriso matador, passo-lhe para as mãos os documentos, a ver se despacho serviço… quando oiço:
“Mas afinal o que vem a ser isto!? Tu queres é ter sexo comigo. Está a tentar subornar-me!?”
Fiquei sem reacçao, estou pálida, as palavras não me saiem, chego mesmo a duvidar que o coração ainda esteja a bater, pois sinto-me fria… novamente aquela voz:
“Olhe que isto é pouco…” enquanto ele continuava, numa lengalenga qualquer, reconheci-o…
Gostei da surpresa, mas não gostei de ser surpresa, deves ter os amigos no carro, por isso não vais conseguir e essa vai ser a minha vingança, enquanto te aproveito, aqui mesmo…

CD

Reburtagem

Outubro 13, 2007

Don Teonércio correu o pano e deu por terminado todo aquele trabalho que esteve em cena, por mais de 15 meses, arrastando cada vez mais gente…
O que se havia passado, foi um escandaloso sucesso, que corria já as bocas do mundo. Depois do que ali se presenciara, as vidas dos que por lá passaram mudou para sempre…
Algumas vidas podia-se dizer que a partir dali nasceram, outras nem tanto, algumas perderam-se e buscam agora alguém que as recupere ou simplesmente lhes indique o que afinal sucedeu. Todo o mundo percebeu que naquela peça, se passou algo mais que apenas os papéis representados, algo mais que o simples assistir, daquele palco se passou mais além e em Teburena ninguém mais era o mesmo.
Nem Teburena, nem nenhuma aldeia dos seus arredores, posso afirmar eu, que efectuei uma apurada pesquisa, para fazer o artigo em que tudo relato.
No fundo, eu sempre soube, que o que por lá se passava, depois das portas fechadas e os panos recolhidos, mudaria para sempre o desenrolar daquelas vidas.
A cerca de 10 Km, em Flambico de Xiró, são dadas as ultimas ordens: – “Albiré, não esqueça minha caixa de cigarrilhas, senão a vitória será sempre algo menor, ou mesmo impossível. José Mirano, meu melhor amigo e 2º líder deste exército, vá com 29845º batalhão e avance conforme combinado. Albiré, passe a ordem de arranque às forças não terrestres e na vinda do telefone, traga minha Xixuca… rápido, que estamos ficando atrasados….”
Foi à voz de comando, de comando do Comandante Respostica, claro está, que se pôs em marcha uma diligência derradeira, para acabar com a pouca vergonha… e foi assim, ao fim de 15 longos meses, que Dom Teonércio, deu finalmente fim à coisa.
Neste momento está o caro leitor, a perguntar-se que ocorreria por lá afinal, e eu respondo… foi um drama… um horror…
Essa é que é essa, a maior vergonha que já se viu por estas redondezas!
Bem, o que era exactamente não sei, que precavido como sempre fui, percebi desde cedo que algo de muito sinistro se passava e nunca me aproximei do local!

Saurita & Outra Coisa Qualquer

Mais um texto em excelente parceira e companhia… mas este, para ver se desemburrávamos… eu continuo na mesma, emburrado…

Os sete

Outubro 9, 2007

Fui desafiado pela Marta e aqui está a resposta (incompleta, mas isto já foi há uma data de tempo)

Sete brinquedos que nunca tive:

  1. Uma pista de comboios electricos, que a pilhas não tem piada nenhuma, se tudo correr bem, ainda hei de ter uma;
  2. Um carro telecomandado, este sei que não tive na infância, mas acho que só à pouco tempo lhe senti a falta;
  3. Legos dos verdadeiros, tive umas peças muito parecidas, duma marca qualquer espanhola, mas não era a mesma coisa e, eram sempre poucos;
  4. O Barco dos piratas ou a Diligência dos cowboys, da playmobil, eu e o meu irmão ainda fomos tentando montar a coisa com peças “emprestadas”, dos de malta que a gente conhecia, mas não sei se o saldo alguma vez foi realmente positivo para o nosso lado;
  5. Aqueles brinquedos da Mecano, são umas máquinas de montar, pinta legos. Sempre gostei de construir coisas, principalmente se metessem electricidade.

Sete lembranças vergonhosas da infância:
(Acho que nunca passei grandes vergonhas, sempre fui bem comportado/ consegui fazer as asneiras com “classe”, no entanto…)

  1. Fui apanhado várias vezes, eu e o Ginja a espreitar para debaixo das saias das raparigas no externato;
  2. As peças dos playmobis, algumas tiveram de ser devolvidas;
  3. Depois da minha mãe ter mandado pintar o quarto, meu e do meu irmão, tive a “brilhante ideia” (palavras do meu irmão à altura), de fazer umas pinturas por cima das camas, a lapiz de carvão;
  4. Fazer concursos de rádio pelo telefone, com o meu irmão, acho que ainda puzemos alguma gente a andar por Lisboa para ir receber os prémios (Sabão mico, o sabão amico);
  5. Quando finalmente descobriram que o meu irmão me dava chapadas por cima da mesa, porque eu lhe batia por baixo da mesa;
  6. O “sermão” do meu pai e da minha mãe, depois de o guarda da fronteira de Valença se ter chibado que haviamos sido umas pestes… por um qualquer motivo os meus pais esqueceram-se da nossa cédula e, eu e o meu irmão, ficámos à espera no posto da guarda da fronteira, que o meu pai e a minha mãe fossem com a minha avó comprar caramiélios a Tuy;
  7. Esta não foi, porque não fomos apanhados, mas podia ter sido… Eu e o meu irmão, de férias em Braga, a fazermos que uma mulher se tinha atirado ao rio, gritando e mandando pedras para o rio que alimentava o moinho e passava encostado à casa dos nossos pais. Uma vizinha ainda esteve para chamar a policia… para acudir à senhora.

Sete lembranças dolorosas da infância:

  1. Fui apanhado a furar as capas de plástico que protegiam a colecção de livros, com encaderanação de luxo, do Julio Verne do meu pai… primeira chapada nas mãos (acho que ainda gatinhava);
  2. Tive a brilhante ideia de proteger o rabo, das sapatadas da minha mãe, com a tampa de um tacho e depois fazer tudo para que ela me desse umas palmadas no rabo… ela aleijou-se na mão… eu passei a apanhar com o chinelo;
  3. Quando ainda na pré-primária tive de usar óculos, sempre fui uma pessoa pacifica, mas nessa altura acho que tive de moldar algumas mentes;
  4. Quando depois tive de usar aparelho nos dentes;
  5. Ter falhado o salto a uma poça, tendo ficado ensopado, no externato. Foi numa terça-feira, dia 7;
  6. Ter espetado um pedaço de vidro num pulso, quando eu e o meu irmão fugiamos de uma vaca (mimosa), que pastava  sossegada num campo perto da casa dos meus pais, em Braga. Sem necessidade nenhuma, que a vaca não deu por nós, ou não nos ligava nenhuma;