As peças de roupa já se encontravam, descuidadosamente espalhadas a caminho do quarto, mesmo a decoração mostrava-se boquiaberta… Era intenso o cheiro que ali estava, não era nauseabundo, embora se se nos entranhasse pelos poros, a lembrar aqueles de onde tinha saido, era quente e excitante. Continuei, já tinha subido a escada até ao piso dos quartos, e áquele cheiro, juntava-se agora o som enolvidavel do prazer. De mansinho, os meus passos iam tomando aquele mesmo ritmo, era impossivel não ficar embrenhado, assomei-me à porta do quarto, sem eu perceber, mas quem ali estava apercebeu-se, e fez-me sinal para me juntar à “festa”… Exitei apenas um segundo, todo o cenário era apelativo.
Tratava-se de uma divisão, não muito grande, cama de casal duma mobilia velha, não antiga, apenas velha, parecia-me acolhedora, uma cadeira ao fundo ao lado da janela.
A figura que me convidou a entrar desaparecera, por uma porta à esquerda, entrei e vi para lá da porta dois corpos, transpirados ao lado de uma outra pequena janela, encostados numa parede de azuleijo branco, frio que aposto que escaldava. Aproximei-me, mas já não era o cerebro que comandava, algo tinha assumido o controlo, toda a envolvência, os odores, os silêncios… Levei o meu tempo a preparar-me, a desabotoar-me e a despir-me, como que a apresentar-me enquanto aproveitava para apreciar, descobrir e conhecer aqueles com quem iria “actuar” (de efectuar o acto).
Aproximei-me… toquei naqueles corpos a primeira vez, mas senti-me em casa, primeiro as minhas mãos apalparam-os sem os distinguir, primeiro num a medo sem medo, depois como participante de (f)acto, pela janela entrava uma brisa quente, enquanto os meus dedos descobriam outros locais mais quentes que o ar da rua, locais que desconhecia até áquele momento, em formas que não tinha experimentado e de que apenas me conhecia. Nunca pensei sentir estocadas assim, sem serem reflexos das minhas e ao mesmo tempo apreciar tanto esse gesto gentil, a expedição era por si só uma aventura, mas o olhar que chegava para lá da rua, atravessada pelos carros, tornava ainda mais intensas todas as “sensações” que me invadiam.
Acordei ainda arfante, latejante, com a sensação do meu sexo na mão de alguém que não a minha… senti o odor adocidado daquela a quem prometi ser fiel. Ainda dormia, perfeita, e ainda assim, passados vinte anos nunca esqueci aquela noite que se repetiu algumas vezes, sem nunca a ter vivido, sem nunca ter tido coragem de a viver.
CD, Marta e Couteiro-Mor