Às vezes acontece, então não é que alguém se esqueceu, ou talvez tenha feito de propósito, do “r” de prior na carta que enviou ao de Mungarelhos e a carta chegou-lhe às mãos…
Foram tempos dificeis, dizia-se que era pior que no tempo da inquisição, à quem aqui defenda que foi tudo propositado, mas também há quem afirme, a voz muda, que o mal é ele ser burro… que a maldade não é tanto dele, que não faz o mal por mal, mas de quem permite que ele aqui o faça. Não daria para o patrão dele o mandar para outro lado? quem sabe, para o outro lado… já estamos por tudo.
Mas falando da inquisição, então não é que a criatura pegou fogo à banca dos jornais, quando lhe acertou com aquela coisa de fumo, na procissão no ano em que aqui chegou. E há mais, diz-me aqui a comadre Felizcomeda que no outro dia, o padre quase a comia… diz ela que nunca pensou que aquilo lhe pudesse acontecer, que lhe estava a servir o almoço e assim que pousou o prato na mesa, ele a cortar a comida ia-lhe arrancando um dedo, pergunta aqui o nosso amigo Germanero porque é que ela tinha o dedo no prato?… está a ficar velhote este nosso amigo, qual é a duvida? O nosso prior é do pior.
Mas o pior mesmo é a forma como ele nos controla, pinta aqueles quadros antigos que nos perseguem com o olhar… mais uma vez está aqui o (ia dizer amigo, mas começo a duvidar) Germanero a dizer que o padre sofre de estrabismo. Germanero, Germanero, acho que não voltas a participar nestas reuniões, isto são assuntos sérios e começamos a duvidar se estás aqui empenhado como nós, ou até de que lado estás tu… não queiras ir para o lado pior…
Tocam lá fora os sinos, a porta do café começa a abrir-se… desde que os sinos são electricos, o tocar do sino diz pouco, dantes dizia que o prior estava na igreja, sempre se controlava melhor… Ao abrir da porta saimos todos debaixo das mesas do “Café ao Lado” de Mungarelhos (não é central, mas quase – esta ouvi ontem no radio), e tomamos as nossas posições… a vida corria normal em Mungarelhos.
CD